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Ao longo de mais de 25 anos de consultório, percebi que muitas mulheres chegam até mim com queixas diferentes, mas, no fundo, procuram a mesma resposta.
Algumas contam que já não dormem como antes. Outras dizem que ganharam peso sem mudar a alimentação. Há quem relate perda da libido, falta de energia, dificuldade de concentração ou oscilações de humor. E existe uma frase que escuto repetidamente:
"Doutora, parece que eu deixei de ser quem era."
Durante muito tempo, cada uma dessas queixas foi tratada de forma isolada. Um sintoma levava a um exame, outro a um medicamento, outro a uma explicação pontual. Hoje, a experiência clínica, aliada às evidências científicas mais recentes, mostra que essa abordagem é insuficiente. A mulher precisa ser compreendida de maneira integrada.
Envelhecer com saúde não depende de uma única intervenção. É o resultado da combinação de diversos fatores que atuam em conjunto. Costumo resumir esse processo em cinco pilares fundamentais, que caminham lado a lado e sustentam uma longevidade com qualidade de vida.
O primeiro pilar é o equilíbrio hormonal.
A menopausa nunca representou apenas o fim da menstruação. Ela marca uma profunda transformação do organismo feminino. A diminuição dos hormônios influencia a saúde dos ossos, do coração, do cérebro, do metabolismo, do sono, do humor e até da resposta do corpo à atividade física.
Por isso, nunca enxerguei essa fase apenas como uma questão ginecológica. Estamos falando da saúde da mulher para as próximas décadas.
Também é importante lembrar que as mudanças hormonais vão muito além da queda do estrogênio. A testosterona feminina também diminui com o passar dos anos, podendo afetar a disposição, a força muscular e o desejo sexual. Paralelamente, alterações na insulina e no cortisol — frequentemente relacionadas ao estresse crônico e ao estilo de vida — tornam esse cenário ainda mais complexo.
É justamente por isso que não existe uma solução única. Cada mulher envelhece de forma diferente e precisa de uma abordagem individualizada.
O segundo pilar costuma surpreender muitas pacientes: a preservação da massa muscular.
Durante muito tempo, a musculação foi associada apenas à estética. Hoje sabemos que essa visão está completamente ultrapassada.
O músculo é um verdadeiro órgão metabólico. Ele participa do controle da glicemia, protege a saúde óssea, preserva as articulações, melhora o equilíbrio e ajuda a manter a independência funcional ao longo dos anos.
A perda de massa muscular começa de forma lenta por volta dos 40 anos e tende a acelerar durante a menopausa devido às alterações hormonais. Sem estímulo adequado, essa redução compromete progressivamente a força, a mobilidade e a autonomia.
Preservar músculos é preservar saúde.
Por isso, o treinamento de força deixou de ser apenas uma estratégia para modificar o corpo. Hoje, ele é reconhecido como uma das principais ferramentas para promover um envelhecimento saudável.
O terceiro pilar está na alimentação.
Nenhum tratamento consegue compensar, diariamente, uma rotina alimentar que favoreça inflamação, resistência à insulina e perda de massa muscular.
Isso não significa viver em permanente restrição ou abrir mão dos prazeres da alimentação. Significa fazer escolhas que trabalhem a favor do organismo.
Uma alimentação baseada em verduras, legumes, frutas, proteínas de qualidade, fibras e gorduras saudáveis contribui para o equilíbrio hormonal, ajuda na preservação muscular e favorece o controle do peso. Em contrapartida, o consumo frequente de alimentos ultraprocessados, açúcar e bebidas alcoólicas pode intensificar sintomas frequentemente atribuídos apenas à menopausa.
Depois dos 40 anos, cada refeição passa a exercer um impacto ainda maior sobre a saúde futura.
O quarto pilar continua sendo cercado por silêncio: a saúde íntima.
Ressecamento vaginal, dor durante as relações sexuais, alterações urinárias e outros desconfortos são muito mais frequentes do que muitas mulheres imaginam. Ainda assim, inúmeras pacientes convivem com esses sintomas por anos, acreditando que fazem parte do envelhecimento ou sentindo vergonha de falar sobre o assunto.
Não precisam.
Essas alterações têm causas conhecidas, tratamentos eficazes e merecem atenção. O próprio assoalho pélvico, formado por músculos, também sofre os efeitos do envelhecimento e da redução hormonal.
Quanto mais cedo essa conversa acontece, maiores são as possibilidades de prevenção e de tratamento.
O quinto pilar, embora não apareça nos exames laboratoriais, talvez seja um dos mais importantes: a saúde emocional.
As oscilações hormonais podem favorecer ansiedade, alterações de humor, dificuldade de memória e uma sensação de perda da própria identidade. Muitas mulheres deixam de reconhecer o próprio corpo e passam a questionar sua autoestima.
Por isso, cuidar da saúde mental é tão essencial quanto acompanhar exames ou tratar alterações hormonais.
Psicoterapia, atividade física, relações afetivas saudáveis, momentos de lazer e uma rede de apoio consistente não são aspectos secundários. Fazem parte do tratamento e influenciam diretamente a qualidade de vida.
Depois de tantos anos ouvindo histórias, acompanhando trajetórias e testemunhando mulheres redescobrirem sua vitalidade, aprendi que esses cinco pilares não funcionam de forma isolada.
Quando os hormônios estão equilibrados, torna-se mais fácil preservar a massa muscular. Uma boa musculatura melhora o metabolismo. Um metabolismo saudável favorece o controle do peso e contribui para o bem-estar emocional. A saúde íntima acompanha esse processo, e a qualidade de vida evolui de forma consistente.
A medicina avançou de maneira extraordinária nas últimas décadas. Hoje dispomos de mais conhecimento, melhores evidências científicas e tratamentos muito mais seguros do que no passado. Mas talvez o maior avanço tenha sido compreender que nenhuma mulher pode ser reduzida a um único sintoma.
Envelhecer é um processo natural da vida. Envelhecer com saúde depende das escolhas feitas ao longo do caminho e do cuidado adequado quando as primeiras mudanças começam a surgir.
Na minha experiência, a longevidade não é construída apenas com exames, medicamentos ou procedimentos. Ela nasce da soma de hábitos consistentes, de acompanhamento individualizado e da compreensão de que cuidar da mulher significa cuidar de todas as dimensões da sua saúde.
Porque viver mais só faz sentido quando também significa viver melhor.
**Bruna Ghetti é ginecologista, especialista em mulheres 40+ e em longevidade.
Publicado por:
Redação Radar Mato Grosso
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